20 January, 2012

Lagosta Quente

Uma Grande Criada

Quem disse que os Chineses são baixinhos? Isso era dantes, a partir da altura que a MacDonalds invadiu a China, eles começaram a crescer também.

Não é verdade, os Chineses do norte - por influência de étnias nórdicas, Mongóis e outros povos - são bastante mais altos que o típico Chinês do Sul da China, o Cantonense. E os Chineses nórdicos têm também a tez mais clara e até na alimentação são diferentes. Os do Sul têm uma alimentação mais condimentada e saborosa. Tive oportunidade de várias vezes verificar isso entre muitos outros aspectos nas minhas variadas viagens às mais importantes cidades Chinesas.

As minhas filhas sempre tiveram criadas Filipinas. Por várias razões, o facto de falarem um Inglês perfeito, serem muito meigas e divertidas para as crianças, para além de serem o Povo mais Latino e Musical de toda a Ásia, as normas alimentares são bastante similares às de qualquer ocidental, rematando com o facto de serem Cristãos Católicos mais ferrenhos do que a maioria dos Ocidentais Cristãos.

A minha filha mais nova antes de aprender a andar, a criada Filipina ensinou-a a dançar. Era muito cómico, punha-se música ou a simples televisão e ela, pequenina com meses, sentada no chão torcia-se toda ao ritmo de qualquer música.

Mas desta vez decidimos arranjar uma nova criada Chinesa.

Alguns anos antes tivemos uma senhora Chinesa como criada. Era uma boa cozinheira. Um dia arranjou outra oportunidade na vida e saiu de Macau.

Era curtida, tinha a mania da limpeza, desmontava peça a peça: fornos, fogões, torradeiras, ventoinhas, ... e um dia um ar condicionado. Tinha um génes de engenharia algures. O meu pai dizia "Por favor, segurem-na bem, não vá ela querer limpar-me a careca um dia destes...".

E assim, um belo dia chegou a nova Ciada Chinesa.

Um metro quase e oitenta, bem constituida, fisicamente era interessante como mulher. Calma pessoal, tinha uma cara masculina de meter respeito. A rapariga teria para aí uns vinte e tal anos, mas uma capacidade de decisão impressionante.

Era esse o grande problema dela. Diziamos-lhe uma coisa e ela fazia outra.

A minha mulher começou a ter medo de falar com ela, pois ela fazia umas expressões estranhas quando recebia ordens, sobretudo porque a diferença de alturas não dava. A patroa vinte centímetros mais abaixo a dar ordens para a "estratósfera", por vezes a comunicação não chegava bem lá acima.

Tinhamos na altura um Dálmata chamado Zero, tinha uma bola preta à volta de um olho e por mais que lhe tentássemos ensinar qualquer coisa o desgraçado nunca aprendia, daí o nome Zero (à esquerda). O Zero era um cão cheio de energia, tinha a minha filha do meio uns quatro anos e a pobrezinha de vez em quando andava a cavalo no Zero mesmo sem ela querer. O Zero vinha a correr de um canto da sala e cada vez que se encontravam ele metia a cabeça por baixo dela e lá ia a criança. Era um problema. Mas ela facilmente resolveu a situação quando o via a correr ficava quieta ou agarrava-se a qualquer coisa.

Bom, para dar banho ao Zero era praticamente uma sessão de luta livre. Mas a nova criada, com o seu metro e oitenta conseguia estourar com o arcabouço do Zero sem problemas.

A verdade é que sempre pensámos que com o tempo ela aprendesse o que queriamos.

Lagosta Quente

Certo dia, uma Sexta-Feira feriado, ponte para o fim-de-semana, fui a Mercado Vermelho de Macau. Um mercado tipicamente Chinês onde os peixes são cruelmente cortados ao meio ainda vivos, ficando o peixeiro com um ar de felicidade atrás de uma bancada de meios peixes com os corações ainda a palpitar. Onde as codornizes, rãs e outros animais são esfolados vivos e introduzidos aos saltos mas sem pele em sacos de plástico, para os felizes clientes levarem os pobres animais "frescos".

Crueldade? Costume? Seja lá como for é chocante para quem gosta de animais.

Bom, comprei umas cinco lagostas de um quilo e meio cada uma.

E fui todo contente para casa pensando "agora chego lá, vou cozer três lagostas com sal, deixo-as a arrefecer, depois vão para o frigorífico e logo ao jantar vamos todos adorar lagosta com maionese e uma salada russa".

E assim foi, arranjei duas panelas e comecei a preparar as lagostas.

Qual não é o meu espanto quando vejo a criada Chinesa a olhar para aquilo que eu estava a fazer e a rir-se a bandeiras despregadas.

Riu-se do facto de eu ter somente passado as lagostas por água e por colocá-las em panelas com água e sal.

E mais se riu quando depois eu as coloquei no frigorífico. Bem, quando descobriu que iamos comer as lagostas frias... aí só faltou rebolar-se no chão.

Eu comecei a ficar farto. Respeito os costumes dos outros povos, mas quando se começam a rir dos meus... salta-me a tampa em três tempos.

Ainda assim, decidi dar-lhe uma oportunidade, pensei que talvez ela tivesse alguma receita tão especial para a lagosta que tornasse o nosso acepipe "Lagosta ao Natural" hilariante.

Assim, no dia seguinte, sábado, disse-lhe no pouco Cantonense que sei, para ela fazer as outras duas lagostas à moda dela para o almoço.

Bom, foi gengibre, molho de soja... penso que foram todos os temperos possíveis e imagináveis da cozinha Chinesa. As lagostas foram partidas aos bocados e misturadas com aquilo tudo.

Fomos para a mesa. Sabem a que sabiam as Lagostas Quentes?

Sabia a peixe? Não.

Sabia a marisco? Não.

Sabia a qualquer animal marinho? Não.

Sabia a Carne! Mas carne com gosto a mato!!

Estão a ver o gosto do javali selvagem? Aquele gosto adocicado desagradável?

Exactamente sabia a javali selvagem mal preparado.

Não foi tarde nem foi cedo. Acabou-se naquele dia a Criado Chinesa, nem três semanas trabalhou para nós, demos-lhe o salário de dois meses e acabou-se.

Jamais eu trocarei "Lagosta fria ao Natural" por Lagosta Quente a saber a javali quente e mal preparado. E ai de quem se rir da minha opção... é despedido em três tempos!

Café e Conhaque

Os Crepe Suzette

Certa vez fui convidado pelo Presidente da Câmara de Foxan para uma visita de dois dias à bela província Chinesa anexa à de Guangdong.

Levei comigo três amigos, dois Franceses o Christian e o ToZe e um Macaense o Mário. Atravessámos a fronteira Macau-China em Zhuhai. Eram umas dez da manhã e decidimos os quatro ir tomar o pequeno almoço na cidade Chinesa de Zhuhai.

Depois de passarmos uma interminável barreira de mendigos organizados e controlados pelas seitas Chinesas: crianças, mães de bébés ao colo, velhos, prostitutas menos afortunadas, defecientes de toda a espécie - mal se entra em qualquer fronteira Chinesa por onde entram turistas, temos estes grupos de gente agressiva que nos persegue, rouba por esticão, puxa pela braço por vezes com rudeza, se não mostramos uma total insensibilidade não param de nos perseguir e coitados dos turistas que manifestam alguma sensibilidade, se dão qualquer coisa a um, são depois assaltados literalmente por centenas de outros.

Dada a nossa experiência - o facto de todos nós sabermos um mínimo de Cantonense suficiente para dissuadir quem quer que fosse: "Desaparece", "Pira-te", "Daqui não levas puto", ... entre outros mimos piores, associado à nossa capacidade física que só por si era um factor desmotivador suficiente - tudo isto fazia-nos passar quase por pseudo-Chineses: os "Kuai-Lou", traduzido à letra os "Diabos Brancos", termo pelos quais os Chineses chamam os Ocidentais que vivem em Território Chinês, o nosso caso.

Escolhemos um bar-restaurante novo e de traços ocidentais, típico do Sul da China, como em Hong Kong e Macau. O menu estava em Inglês e Chinês. Eu pedi café aguado estilo Americano (na China desconhecem quase o pão e o café e muito menos o nosso café latino concentrado) e French Toast (uma fatia de pão-dourado feito na hora, onde se pôe manteiga e depois mel, o nome é curioso e para os Franceses não lhes diz nada, assim como as French Fries, batatas fritas também não lhes dizem nada).

Os meus amigos pediram também café, torradas. Mas o azarado do Christian teve a ideia de pedir Crepes Suzette. (os Franceses adoram crepes).

Aqueles Crepes Suzette puzeram o cozinheiro quase maluco. O coitado não sabia fazer aquilo. Aliás, provavelmente nunca ninguém na vida lhe pediu para fazer tal coisa.

Todos bebemos o nosso café e comemos as torradas e french toasts. Ao fim de uma hora estávamos todos satisfeitos... menos o Christian.

Tivemos que esperar mais uma hora pelos Crepes Suzette. Mas, quando vieram estavam óptimos, provavelmente alguém os trouxe a correr de bicicleta de um hotel de cinco estrelas qualquer, ou talvez tenham passado a fronteira vindos de um restaurante de Macau.

Moral: se estiverem com pressa deixem as Suzettes em paz enquanto estiverem na China.


Conhaques

Por sugestão do Mário cada um de nós levava uma ou duas garrafa de Conhaque e Armanhaque. Dizia ele que estas eram das ofertas mais preferidas dos Chineses.

E sobretudo Francês, Remy Martin e outros do género.

Saimos do Zhuhai por volta do meio dia.

Na Repúplica Popular da China conduz-se pela direita, em contradição com Macau e Hong Kong, onde os Britânicos impuzeram a condução pela esquerda.

Os Chineses têm muito menos regras de trânsito que os Ocidentais e algumas são o oposto das nossas, por exemplo: numa via rápida têm prioridade os veículos que entram e não os que já lá estão. Sendo normal verem-se carros e camionetas paradas no meio da estrada de capô aberto, ou porque alguém se lembrou de bater uma soneca. Nas ultrapassagens é normal os carros que vêm em sentido contrário afastarem-se quase para fora da estrada para deixar passar o que vem de frente em ultrapassagem. Uma vez em Hainan (uma ilha Chinesa em frente ao Vietnam) numa estrada de uma faixa de rodagem e dois sentidos, iamos fazer mergulho com garrafa na parte sul da ilha e atravessámos a ilha porque o aeroporto ficava na parte norte. Acreditem que a camioneta em que fomos, uma certa vez fez uma ultrapassagem em plena curva e precisamente em sentido contrário vinha outro carro a ultrapassar.

Quatro carros em paralelo numa estrada onde só podiam passar dois. Dois dos carros sairam um pouco fora da estrada e todos passaram, em plena curva. Bem, eu apanhei um grande susto, mas o condutor e os outros Chineses foi como se nada tivesse acontecido, era normal para eles.

A verdade é que menos regras levam os condutores a estarem mais atentos e a não acreditarem cegamente num semáforo. Curiosamente a percentagem de acidentes é bastante mais baixa que nos Países Ocidentais. Muitas planícies, montes verdejantes e algumas aldeolas junto à estrada que por sinal era de boa qualidade. Viajámos ainda assim umas três horas de carrinha até chegarmos ao encontro com a Câmara de Foxan.

Como é natural ficámos num hotel do estado Chinês. Fora das Regiões Económicas Especiais (Macau, Hong Kong e as Zonas Aduaneiras às antigas colónias europeias) o Estado Comunista continua a manter uma forte pressão sobre a economia.


Café e Conhaque

Pela tarde, entramos na Câmara de Foxan. Um simpático e risonho presidente de pequena estatura, com sessenta e tal anos foi o nosso anfitrião.

Levou-nos a visitar vários edificios. Mostrou-nos maquetas, plantas de projectos e alguns terrenos. O seu objectivo era precisamente convidar investidores estrangeiros para financiarem os projectos de construção civil do município, sobretudo hotéis, parques de diversões, campos de golf e resorts turísticos.

Obviamente que estávamos perante investimentos de alto risco, onde colocar o capital poderia significar nunca ver nenhum dinheiro de retorno.

Nessa noite, fomos convidados para jantar num restaurante do hotel de cinco estrelas mais chique da cidade. Um curioso restaurante de comida pseudo-ocidental.

Era uma mesa para doze pessoas, nós os quatro e oito Chineses da câmara de Foxan.

De repente, as garrafas de conhaque apareceram em cima da mesa e o presidente encheu doze grande copos altos, com o conhaque. Eu e os meus colegas ficámos de boca aberta, pois iamos fazer um brinde gigantesco de conhaque com o estomâgo vazio.

E assim foi. Na realidade, os Chineses que simplesmente bebem chá quente com as refeições - e mesmo durante todo dia, substituindo desta forma a água - em ocasião de festas não é com vinho que acompanham as refeições, é com conhaque e em copos de trinta centímetros cúbicos.

Bom, ao fim de meia hora estavamos todos já rosados. Meio litro de conhaque com o primeiro prato, era obra. Levanto-me e digo em Francês para os meus colegas:

"Vamos acabar com eles pessoal" - Ao mesmo tempo que faço um brinde para todos, claro que isso obrigava a que todos se levantássem para beber o copo até ao fim, sem parar.

A verdade é que nós Europeus estamos geneticamente mais preparados para absorver conhaque e assim foi. Com mais de um litro de conhaque no corpo só nós nos aguentávamos ainda de pé. Os oito Chineses, vermelhos e com as orelhas a latejar, já não se conseguiam levantar para os brindes. Para além de rirem a bandeiras despregadas. Foi bastante divertido!

Por fim lá conseguimos mandar vir café, claro depois dos morosos esclarecimentos sobre como explicar aos criados o que era café (aliás a palavra CAFÉ não tem tradução para o Chinês, eles também dizém CÁFÊ).

O ToZe teve uma saida hilariante. Lembrou-se de explicar aos Chineses como é que nós bebemos conhaque. Calmamente, foi dizendo que depois de uma grande refeição se bebe café e que o conhaque serve para acompanhar o café, sendo até usual deitar um pouco de conhaque na chávena do café (no caso eram de chá). E todos nós seguimos o exemplo do ToZe.

O presidente da Câmara de Foxan, achou que devia fazer qualquer coisa, perante tão imponente e surpreendente sabedoria Ocidental...

E não fez mais nada: pegou na chávena do café e deitou-a toda para dentro do copo de conhaque que teria ainda uns vinte centímetros cúbicos de Remy Martin.

Os Chineses seguiram o exemplo do presidente... e beberam, com um ar sofrido.

Acabámos todos, nós e os Chineses, numa risota sem fim e quase abraçados uns aos outros.

Depois fomos todos juntos para um Night-Club relaxar.


A Bela Adormecida

O Night Club era no próprio hotel do restaurante. Foi praticamente sair de uma porta subir uma ampla escadaria e entrar noutra.

Música ocidental, luzes psicadélicas, mulheres bonitas por todo o lado... o normal em ambientes destes.

Eu mandei vir um seven-up pois estava enjoado.

"O que achas daquela miúda lá ao fundo? Naquela mesa sozinha?" - Segredou-me o Christin ao ouvido.

"Sim, bem bonita! Um pouco triste e sonolenta, mas muito bonita!" - Digo-lhe eu.

"Vou meter conversa com ela..." - E o Christian desapareceu por entre as mesas.

Passado um pouco, aparece-me o Christian com um ar alucinada a esbracejar por todo o lado.

"Putain! Falei com ela e mandei vir duas Coca-Colas, não sei o que é que ela disse ao empregado mas ele trouxe uma Coca-Cola e um cálice de conhaque. Ela bebeu o conhaque de um trago e de repente aparece o criado com outro. E ela fez o mesmo, de um só trago bebeu o outro cálice... eu tive que fugir." - O Christian estava desesperado.

O pobre do Christian pagou US$100 pelos dois conhaques da Bela Adormecida.

Moral: deixem as Belas Adormecidas, adormecer até deixarem de ser belas, sobretudo quando se calhar até se chamam Suzettes.

Cór-Cór o Terrível

A Vala

Estava um dia sêco. Eram duas da tarde e o sol a pino não dava hipóteses. Eramos para aí uns dez ou doze. Quase todos em tronco nú, de calções, chinelos ou sandálias, outros menos afortunados só com as solas que Deus nos deu. Não havia mesmo nada para fazer, o calor era tanto que até as ideias se tinham evaporado. De pança cheia, lá estavamos nós sentados no quintal do Cór-Cór o Terrível. Que por sinal era o vizinho do JOCA, Jóquinha para a mãe dele, e JO para os amigos-de-sangue como eu.

As casas eram geminadas, duas vivendas de rés-de-chão onde os Pais do JO e do Cór-Cór tinham as suas respectivas Cantinas. As entradas eram pelo lado da estrada, e nas traseiras eram os quintais, virados para as Tembas, aldeolas de cabanas de colmo onde viviam os nativos menos favorecidos.

Havia moscas, moscardos, mosquitos por todo o lado. Eram verdes, azuladas, metalizadas, vermelhas, amarelas, e eram aos milhares. Todos nós sabiamos porquê!! Mas ninguém arriscava uma palavra... talvez ninguém fosse capaz de abrir a boca. Era isso! O cheiro nauseabundo que pairava no ar, até nos impedia de abrir a boca. Porque ali era mesmo: Ou entrava mosca, ou...

A catástrofe era total, e o cheiro insuportável, sentia-se a kilómetros. Mas ninguém arrredava pé... afinal eramos Homens, ou não? O respeito pelo temível Cór-Cór obrigáva-nos a aguentar aquele tremendo cheiro imundo a merda apodrecida... Exacto! A fossa da casa do Cór-Cór estava entupida. E o pai dele, num acto de desespero total para resolver o problema, esventrou a terra e pôs a nú aquela enorme fossa escura, A VALA.

Cheia de uma pasta brilhante e amolecida, o castanho escuro e o amarelo misturavam-se com o preto, entre uma aguada, aqui e ali. Um buraco circular com cerca de três por quatro metros, com para aí um de fundo. Onde as moscas multicolores e felizes, sentiam ter ganho o paraíso. Para nós aquilo era pior que o inferno, mas todos tentavam mostrar a maior das descontrações. E lá estavamos nós corajosamente, em suplício os Doze Cavaleiros da 'Vala Redonda', em meditação. Não sei bem se a contar as moscas, ou a ver qual era o primeiro a pifar, redondo por terra.

"Já sei! Tive uma ideia maningue porreira!!" - Exclamou o Terrível Cór-Cór, que num salto de grande agilidade se pôs em pé, e que com os olhos brilhantes nos fitava, por ter tido uma ideia genial. Provavelmente a ideia do mês. E já sabiamos, ia sobrar para todos, ou alinhávamos ou levávamos porrada...

"Aposto que sou capaz de saltar por cima da fossa!!!" - Berrou o Cór-Cór com um esgar de vitória antecipada. Olhei para o JO que imediatamente entrou em sintonia telepática comigo. Os nossos olhinhos sorriram por uns segundos, a princípio, mas depois... foram ficando cada vez mais sérios, até que ficaram estáticos e vazios. Pois, se o Cór-Cór ia saltar a fossa de merda, a seguir tinhamos de ir nós!!

"Aposto que não és capaz!" - Ouviu-se uma voz não sei de onde. Estávamos todos tramados, o desafio estava lançado... não havia nada a fazer.

Cór-Cór iniciou imediatamente os exercícios de aquecimento. Não havia tempo a perder, pois o torneio ia ser longo. "Bom malta, tenho de ir levar a minha bicla à oficina." - Ouviu-se outra voz, mas muito fininha. "Vais depois!!!" - Finalizou de vez o Terrível Cór-Cór.

"Afastem-se!!" - E o Cór-Cór cheio de coragem afastou-se para aí uns dez metros da vala.

Todos nós formámos como que um corredor junto à fossa. Um de nós ficou de contar até três.

O silêncio era fúnebre. Só o zumbido das moscas, cortava o arfar das nossas respirações...

Eram Três horas da tarde...

"UM!... DOIS!!... TRÊS!!!" - Ouviu-se a partida. E... aí o Cór-Cór começou a correr velozmente os dez metros.

Ele é mesmo um atleta incrível, pensavamos todos. Que agilidade. Que leveza.

Cór-Cór colocou o seu último pé exactamente um milímetro antes do buraco... e então esvoaçou.

Tal como um pássaro gigante que se lança num precipício, com o rosto contorcido por um esforço inumano, Cór-Cór iniciou o seu tremendo voo que iria levar longos segundos. Um milagre estava prestes a acontecer... o pé do Cór-Cór iniciou a descida para o outro lado da vala.

Atenção! Vai aterrar... o pé do Cór-Cór tocou vitoriosamente a outra margem do 'inferno'...

Mas, ... cuidado!... O delicado pézinho do Cór-Cór que tão bem tocou o outro lado fez a borda do buraco desmoronar-se... e sucedeu o que inesperado (ou esperado?): O valente Cór-Cór desapareceu totalmente dentro daquele infernal buraco de trampa!!

Socorro... Preciso de mais Sabonetes e, e... PerfuuumeeeES!!

A Grande Viagem

A Partida

A minha aventura fantástica no Mundo MZ*1 - ou seja a minha primeira ida a Moçambique - começou naquela bela manhã na cidade de Lisboa, tinha eu onze anos em 1970. Fui com a minha mãe e com o meu irmão apanhar vacinas. Aquelas torturas eram necessárias. Sem elas podiamos ficar com malária, febre amarela, febre tifóide, ...

Foi uma experiência sem graça. Berrámos que nos fartámos. E já o médico dizia: "Minha senhora, leve-os já para MZ*1... eles lá podem abrir as goelas à vontade". Por fim, como prémio de tanto sofrimento, recebemos um livrete amarelo cada um - o livrete das vacinas - deviam era ter-nos dado, pelo menos, uma enciclopédia.

O certo é que alguns dias depois recebemos permissão das autoridades para partir. Foi emocionante, finalmente entrámos naquela magnífica Aeronave que nos iria levar naquela grande viagem.

Realmente ser Navegador, real ou virtual, é um pouco aquilo que todos nós fazemos durante a Vida. E foi dentro desta nave que começou a minha carreira de Navegador, mas só muitos anos mais tarde vim a perceber isso.

"Mãmã quero fazer chichi!" - Esta célebre frase ecoou dentro daquele gigante tubo de aço, vezes sem conta. O meu irmão parecia que estava roto. E eu não podia deixá-lo sozinho. De maneira que cada vez que ele abria a boca, dez minutos depois abria eu. A minha mãe, uma bela Beirã, ia dando em doida. Só sei que por fim já não havia água nos sanitários, foi cómico à brava.

A trajectória seguida pela aeronave foi bastante linear e, no meu modesto entender de então, nada de anormal se passou. Para uma viagem entre dois Mundos, PT e MZ*1, até nem foi difícil. Claro, houve alguns abanões... mas para um experiente passageiro da Carris, a viagem foi mesmo bastante calma. Sobretudo foi agradável e até sensualmente excitante pois as miúdas de bordo, as hospedeiras, eram novinhas em folha e 'boas-como-o-milho'... É pena, pois já não podemos dizer o mesmo hoje em dia, eles estão sempre a renovar as aeronaves mas as hospedeiras são sempre as mesmas, e agora andam acompanhadas dos pais e dos maridos. Um dia destes têm de alargar os corredores para o pessoal de bordo poder andar de Cadeirinha-de-Rodas.

Comer? Bem o meu irmão não comeu nada. E eu comi tudo. "Nada se perde tudo se transforma?" Qual... tudo se aproveita!! Isso sim.

O breu da noite chegou mais rápido que o normal, mas finalmente, e no meio daquela excitação toda, lá conseguimos os três dormitar qualquer coisa.

Muitas horas de voo depois, e mais uns tantos solavancos, copos de água, chichis, e... sei lá mais o quê. Acabámos por aterrar numa vasta cidade, com casitas espaçadamente semeadas ao desbarato, numa planície sem fim. A cidade separava o Oceano Índico de uma floresta gigante, com árvores e vegetação impenetrável.

"Já chegámos a MZ*1?" - Perguntei à minha mãe. E, como não podia deixar de ser, do outro lado ouviu-se o "eco" emitido pelo meu irmão - "Mãmã, já chegámos a MZ*1?"

"Sim meus amores... chegámos, e o Papá já deve estar à nossa espera." - Disse minha Mãe em som 'estereofónico', com o arregalar de olhos e o acenar de cabeça tão característico nela.

Nós os dois, feitos loucos, quase que saíamos pela janela, tipo escotilha de navio...

Partidos mas inteiros

O dia estava quente, abafado mesmo. Embora junto ao mar, nem uma simples brisa oceânica soprava. O astro solar brilhava intensamente, e não se via uma nuvem no céu. A luz do dia era tão forte que tudo era branco naquela bela cidade de BEIRA.MZ*1. Iria precisar de algum tempo para me adaptar àquele sol.

Lá estava o meu Pai, feliz. Todos nos abraçámos com emoção. Uma lágrima aqui e ali, entre gargalhadas e sorrisos de satisfação... abraços e beijos sem parar. A alegria era tanta que até doia.

É quando um Pai, ou uma Mãe, partem para longe da Família que compreendemos que a infelicidade também existe. Pior do que isso é quando a própria Famíla se quebra: Pai para um lado e a Mãe para o outro. Nessas situações, o egoísmo e o orgulho dos Pais são tão grandes que nem percebem que estão a dar a primeira grande lição de infelicidade aos filhos. Só muitos anos mais tarde os 'tarados' se apercebem da pobre lição de vida que deram aos frutos do seu desvaneio erótico. Só que aí já é tarde, o tempo não pára e não dá segundas oportunidades. Mas, será que as pessoas já se esqueceram do verdadeiro sentido da Vida? E o meu caro leitor, por acaso sabe qual a resposta? É tão simples: Vivemos simplesmente para gerar mais Vida! Sim, manter a espécie humana é a principal razão da nossa existência. Tudo o resto é secundário. E é quando nos esquecemos deste simples facto que passamos a ser mais infelizes do que realmente somos, passamos a viver num mundo de ilusões e sem rumo. É tão singelo, mas é verdade, é aqui que está o segredo da Felicidade Humana. É aqui que está a nossa maior fonte de alegria e plenitude. Sim, nos nossos filhos.

Se soubermos acarinhar, educar com doçura, dizendo não quando é preciso, e acima de tudo, desculpando, aceitando e tolerando os momentos menos bons da Vida, estamos a criar rebentos viçosos e moralmente bem formados. A Família é o elo mais forte do animal Homem, mais do que o próprio ventre materno. É na força da união da Família, Pai, Mãe e Filhos que se encontra a estabilidade para podermos propagar a espécie em harmonia com a natureza e com os outros semelhantes. Sem uma Família unida não existe grande futuro para a humanidade, e jamais a felicidade irá preencher os corações vindouros, pois esses nunca irão perceber o significado dessa palavra mágica, Família, pois nunca a tiveram.

Fomos almoçar, por mal dos nossos pecados. Horas mais tarde, entrámos numa outra aeronave mais pequena, para seis passageiros: meu pai, minha mãe, eu, meu irmão, o piloto e um outro homem. Com excepção do piloto, as nossas caras passaram por todas as côres do arco-íris. Esta viagem foi o fim da picada e acabou por ser o meu verdadeiro baptismo de Navegador cibernauta. Em plena planície, os poços-de-ar eram tantos que a pequena aeronave não fazia mais do que subir e descer vertiginosamente. Cada vez que passávamos por cima de um zona de ar quente, portanto com ar menos denso, o pequeno aparelho vinha por aí a baixo na brasa, o estomâgo subia então até à boca, e começavam as côres: branco, amarelo, verde, azul, ... por volta do lilás o piloto percebia que era altura de puxar o manche (joystick?) com toda a força para trás, para ganhar altitude. De repente, saíamos daquela depressão e, aí iamos nós na pirisca a subir, o coração vinha então para os pés... e novamente as côres, mas em sentido contrário. Quando o piloto nos via brancos como a cál, então empurrava o mache para a frente...

Claro que o piloto era um verdadeiro nabo, um 'desesperado', e o tempo não ajudava em nada. Nem imagino se estivesse tempestade. De nada me serviram os longos anos de experiente passageiro da Carris.

No meio daquela zonzeira toda, parece que fizemos uma paragem. Não sei bem se para abastecimento de combustível, ou para equilibrar as côres. O piloto lá deve ter achado que estávamos sempre roxos. E isso não dava para ele saber se devia subir ou descer. NICODALA.MZ*1 foi a aldeola escolhida para recuperar o colorido.

As únicas vantagens desta última parte da viagem foi percebermos que em vez do vermelho e do verde do trânsito rodoviário, na aviação usam mais o lilás e o branco. O laranja deve equivaler mais ao menos ao roxo. A outra vantagem foi ficarmos a perceber a importância dos ligamentos e nervos, sem eles tinhamos chegado peça a peça, ou seja osso a osso.

Multicolores, doridos até aos ossos, partidos mas inteiros, foi assim que finalmente aterramos em INHAMBANE.MZ*1.

Finalmente, Terra Firme

Depois de uns saltinhos de bailarina torpe e desajeitada, lá acabou a pobre da aeronave por parar. Finalmente, os nossos corações começaram a voltar ao ritmo normal.

"Obrigado meu Deus!" - Alguém disse dentro daquela lata, e naquele momento percebi, mais uma vez, que Ele existe mesmo. Mentalmente repeti aquela frase vezes sem conta... Tal como hoje, quando a alegria e felicidade me invadem o espírito, depois de muitas e longas mágoas.

O dia estava quente, abafado mesmo. Embora junto ao mar, nem uma simple brisa se fazia sentir. Como era possível? A famelga estava já à nossa espera. Lá estava o meu padrinho. O irmão de meu pai, meu ídolo de criança e velho parceiro de 'patifarias' bem divertidas, tais como: 'Como esmagar uma banana sem usar as mãos...', ou 'Teoria do choque de particulas da bota versus carrinhos miniatura'.

"Outra vez beijos, e abraços. Bolas, esta gente não sabe fazer mais nada", comentei para com os meus botões.

"Então que tal foi a viagem?" - Devem estar a gozar comigo? A resposta parecia-me óbvia, pela côr esverdeada que todos tinhamos. Mas, nenhum de nós teve coragem para emitir um piu sequer sobre o assunto. Era a honra da Família que estava em jogo, e isso era sagrado.

Pior do que tudo é que também não dava para dizer: "Estou farto e quero ir-me embora..." - Isso seria o fim, pois era preciso repetir tudo de novo mas agora para o regresso...

20 September, 2011

More than 40 dead in attack in Burundi

Burundi 19/Septembre/2011 - at Catumba one village near the Congo border, 15 Km from the Burundi capital, Bujumbura, one armed group of terrorists invaded one restaurant in a public area and cold-blood murdered more than 40 persons, between women and children.